Blog


Trabalho mais. Produzo mais?


28 de janeiro de 2019

Nas últimas décadas, o mundo corporativo acostumou-se a ver pessoas fazendo horas extras, ficando até mais tarde no escritório, levando serviço para casa e trabalhando aos finais de semana. A demanda de serviço e pressão por resultados estão cada vez maiores nas empresas, e trabalhar além do horário, mais que uma necessidade, passou a ser sinônimo de competência, dedicação e comprometimento.

Este comportamento ocorre principalmente nos cargos de gestão e chefia dentro das companhias; é como se houvesse uma regra oculta   e não documentada mas que todos seguem: quanto maior o cargo, mais tempo você precisa passar no trabalho! A tecnologia ajuda a intensificar esse cenário, pois permite ao funcionário ficar conectado à empresa mesmo distante, seja via celular, e-mail ou acessando o sistema remotamente. E isso é visto por muita gente como algo normal, pois seria este o preço a ser pago pelo sucesso. Por vezes, chega-se ao absurdo de se estranhar e criticar quando um chefe vai embora em seu horário, após “só” ter trabalhado as horas pelas quais foi contratado.

No entanto, pesquisas recentes têm questionado este cenário e apontam que as horas que ficamos dentro da empresa não tem relação direta com o quanto produzimos. Pelo contrário, o excesso pode atrapalhar o desempenho intelectual, fazendo com que a pessoa cometa mais erros e demore mais tempo para realizar as tarefas. 

De acordo o IBGE e a revista Forbes Brasil, o trabalhador brasileiro fica em média mais tempo no trabalho do que em países como Dinamarca, França, Alemanha, Noruega, Finlândia, Suécia e Estados Unidos. No entanto, segundo Fernanda de Negri, diretora do Ipea – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, a produtividade nos países desenvolvidos era em média 180% maior que a brasileira na década de 80, e agora é cerca de 300% maior.

Chade-Meng Tan, ex-engenheiro do Google e autor do livro “Busque Dentro de Você”, estudou a inteligência emocional e o cérebro humano, e virou uma espécie de guru após criar e implementar com sucesso dentro da empresa um programa que chamou a atenção de pessoas como Jimmy Carter, Dalai Lama, Al Gore e Barack Obama. Meng Tan defende que temos dentro de nós o que precisamos para ser mais criativos e produtivos, e que técnicas simples de respiração e meditação já são suficientes para aumentar nosso foco, concentração, desempenho e capacidade produtiva. Tan diz ainda que o cérebro possui um limite diário de decisões a serem tomadas e de horas em que consegue trabalhar com qualidade. Esse limite precisa ser respeitado e o descanso é que irá recuperar nossa mente para a próxima jornada diária de trabalho.

Outro mito que vem sendo derrubado é o de que o funcionário ideal precisa ser multitarefa. Saber fazer várias atividades é bom, mas executá-las ao mesmo tempo não é algo inteligente. Pesquisas apontam que fazer mais de uma atividade por vez reduz em até 40% a capacidade cerebral. Isso aumenta o tempo de execução da tarefa, além de baixar a qualidade do que é feito.

Segundo Geronim Theml, coach de produtividade, autor do livro “Produtividade para quem quer Tempo” (Editora Gente) e criador do programa “Academia da Produtividade”, produzir não significa trabalhar mais, e sim trabalhar de forma mais inteligente, gerando mais resultados. “Ocupar-se não é produzir! Produzir é fazer o que é necessário na direção da realização de seus sonhos, de um objetivo maior. O resto é se ocupar”. Para Theml, as pessoas estão cada vez mais se ocupando ao invés de produzir, enchendo seus dias com tarefas que não são parte de um objetivo maior. Isso lhe traz a sensação de que passou o dia trabalhando, mas no fim, o dia não rendeu, gerando frustração; e conforme essa rotina se repete, a pessoa acaba se sentindo impotente e engolida pelas tarefas. Ainda de acordo com Theml, ter foco e clareza dos seus objetivos é o primeiro passo para a pessoa produzir mais e conseguir realizar suas tarefas em menos tempo.

Outro estudioso no tema e que considera desnecessário ficar mais tempo no trabalho é Christian Barbosa, autor de vários livros sobre gestão do tempo e produtividade, entre eles o best-seller “A Tríade do Tempo”. Barbosa defende que devemos classificar cada uma de nossas tarefas em urgentes, importantes ou circunstanciais, e depois, a partir de um método e com a ajuda de ferramentas de gerenciamento de tarefas, ir eliminando primeiro as urgências e, idealmente, ter o maior tempo do trabalho preenchido com a realização de tarefas importantes. Ele também chama a atenção para os “ladrões do tempo”, que são distrações e interrupções que tiram a atenção e roubam a produtividade.

Além de todas essas pesquisas que desvinculam as horas trabalhadas a mais com maior produtividade e eficiência, há também outra questão a ser considerada, embora mais difícil de mensurar, por ser um pouco mais subjetiva. Estou falando do equilíbrio e da qualidade de vida do funcionário que trabalha dez, doze ou quatorze horas por dia. Este tempo adicional dedicado à empresa certamente está sendo tirado de outras atividades importantes. E qual impacto isso terá em sua vida? Que preço ele paga por agir assim? Talvez ele pague com a própria saúde… ou com um casamento em crise, com uma vida sem pequenos prazeres, com o afastamento dos amigos ou então sem acompanhar de perto o crescimento dos filhos. Não importa o preço a pagar, com certeza ele é muito alto!

Claro que existem dias atípicos no trabalho e ninguém está livre de se ver diante de um problema grave que estourou e que requer uma dedicação extra. No entanto, essas situações devem ser vistas como exceções e tratadas como tal; o que não pode é deixá-las frequentes a ponto de se tornarem regras. Sei que nem sempre será fácil, mas negociar prazos, gerenciar urgências e definir prioridades também são habilidades que fazem parte do arsenal do um bom profissional.

Comentários
Alexandre Gaboardi
Alexandre Gaboardi é empresário, Coach profissional e mentor de Coaches, membro da Sociedade Brasileira de Coaching e diretor de Produtividade da ABRAP Coaching – Associação Brasileira dos Profissionais de Coaching. Graduado em Engenharia, pós-graduado em Coaching e Liderança e com MBA em Gestão Estratégica de Negócios, é CEO e fundador da Treinna – Coaching Consultoria
Contatos

WhatsApp: (11) 99994-6682 suporte@coachingtreinna.com.br